Mondlane suspende protestos temporariamente para permitir investigação internacional
Maputo, Moçambique – O líder da oposição em Moçambique, Venâncio Mondlane, anunciou que considera suspender os protestos pós-eleitorais durante cinco dias. O objetivo é criar espaço para a entrada de organizações internacionais que possam investigar alegados abusos de direitos humanos por parte das autoridades policiais. A declaração foi feita esta segunda-feira, de acordo com fontes locais.
Desde o final de outubro, Moçambique tem sido palco de intensos protestos, frequentemente marcados por episódios de violência. Estes tumultos começaram após a Comissão Eleitoral Nacional declarar Daniel Chapo, candidato do partido governista FRELIMO, como vencedor das eleições presidenciais com 71% dos votos. Venâncio Mondlane, o principal opositor, rejeitou os resultados, alegando fraude e proclamando-se vencedor.
Conselho Constitucional e nova onda de protestos
Na semana passada, o Conselho Constitucional confirmou Chapo como vencedor, mas ajustou a percentagem de votos atribuída ao presidente eleito para 65%. Este anúncio alimentou uma nova onda de manifestações ainda mais violentas, com várias cidades do país a serem afetadas.
Segundo o site de notícias Clube de Moçambique, Mondlane planeia anunciar nos próximos dias a próxima etapa dos protestos, caso as investigações internacionais não avancem.
Tensão nas fronteiras e impacto regional
A crise em Moçambique já está a ter repercussões nos países vizinhos. A África do Sul aumentou as patrulhas na sua fronteira com Moçambique, numa tentativa de prevenir atividades criminosas relacionadas com os protestos. "Estamos a trabalhar em cooperação com o governo moçambicano para restaurar a ordem e reforçar a segurança", afirmou a Estrutura Nacional Conjunta de Operações e Inteligência da África do Sul (NATJOINTS).
No mês passado, a África do Sul chegou a encerrar temporariamente a passagem de fronteira em Lebombo, após manifestantes incendiarem veículos no lado moçambicano. Entretanto, o presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, enviou um enviado especial, Sydney Mufamadi, para dialogar com as autoridades moçambicanas e encontrar uma solução para a crise que ameaça a estabilidade da região.
Escalada de violência e fuga de cidadãos
A violência já causou a morte de pelo menos 277 pessoas desde o início dos protestos, de acordo com a Plataforma DECIDE, uma organização de monitorização eleitoral. A maioria das vítimas foi atingida por disparos de agentes de segurança.
Num episódio particularmente alarmante na semana passada, 33 pessoas morreram durante uma fuga em massa na Prisão Central de Maputo, na cidade de Matola, a cerca de 15 quilómetros da capital. Mais de 1.500 presos escaparam, incluindo 29 detidos considerados "altamente perigosos", o que agravou a crise de segurança no país.
A situação levou milhares de cidadãos moçambicanos a procurarem refúgio nos países vizinhos. No Malawi, cerca de 3.000 refugiados já atravessaram a fronteira, afirmou Moses Kunkuyu, Ministro da Informação e Digitalização do Malawi. "Estamos a abrigá-los em escolas temporariamente, mas o número de refugiados deve aumentar nos próximos dias", alertou Dominic Mwandira, um responsável distrital do Malawi.
Impacto económico e social
Os protestos também estão a afetar o comércio e o abastecimento de combustível na região. O Malawi, um país sem acesso ao mar, enfrenta dificuldades na importação de combustíveis devido à instabilidade no território moçambicano.
A comunidade internacional está atenta à situação, com apelos crescentes para uma resolução pacífica que garanta a estabilidade política e social no país. Mondlane continua a insistir na investigação dos alegados abusos, enquanto o governo moçambicano tenta conter a crise.
Fonte: AFP
Texto: TV VOZ DO POVO/ Tidjane Cande
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